quinta-feira, 14 de dezembro de 2006

... continuo a partilhar.

"Meninas e Bonecas III"

Sara continua:
- Eu sempre aqui vivi. Esta casa é que já não parece a mesma. No início, quando vivia aqui com a minha mãe, era tudo muito mais simples. Tínhamos uma mesinha, três banquinhos, além onde está o balcão, ficava a cozinha com um pequeno fogãozinho. Ali ao fundo – apontou para a zona mais afastada da porta – ficavam duas camas, muito simples, separadas por uma cortina. A minha mãe dizia que assim não havia sequer uma parede que nos afastasse uma da outra. A bem da verdade, quando fazia muito frio ou estávamos mais tristes, aqueles dias que não correm muito bem, sabes, nem a cortina nos separava.
“ Todos os dias ia para a escola. A minha mãe queria que eu aprendesse a ler. Assim, um dia, poderia ler-lhe as histórias bonitas que os livros contam e poderíamos sonhar juntas. Quando chegava a casa já uma refeição deliciosa estava na mesa. Nunca era muito, mas era delicioso. Depois de lhe contar tudo o que tinha aprendido ia brincar com a minha melhor amiga, a Aurora.” – e mostrou-lhe uma boneca de trapo muito velhinha e gasta. Os cabelos eram feitos de pedaços de lã e a cara era bordada, à excepção dos olhos que eram dois botões, num tecido já encardido com o tempo e o uso.
- Essa é a tua melhor amiga? Uma boneca? E até tem nome! – diz Edgar, incrédulo.
- Qual é o problema? É feia? Não gostas do nome? - É uma boneca. Um objecto. Um ser inanimado. Todos os dias entram aqui dezenas de meninas que olham fascinadas para estas bonecas como se tivessem poderes mágicos. Mas são apenas bonecas. ( continua )

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